CIBERCÃO NÃO

por Sandra Costa

Os japoneses, agora, vieram com essa: um cachorro cibernético. Não faltava mais nada. O cibercão dá a patinha, chuta bola, dá boa-noite, abana o rabinho. Muito prático. Você vai viajar, desliga o cachorro.

Fico pensando nas situações que os proprietários de cibercães enfrentarão. A criança grita da sala: Mãe, o cachorro estragou! A mãe leva o cachorro no eletricista. Você programa o cachorro para dar boa-noite a tal hora, cai dormindo mais cedo, na hora programada o infeliz vai lá e te acorda.

E como será a convivência do nosso amigo eletrônico com os cães de verdade? Sairão juntos, perseguindo gatos, latindo para os carros que passam, achar-se-ão, mutuamente, uns chatos ou tornar-se-ão inimigos? E se, devido à insatisfação dos novos donos e conseqüente demissão dos novos cachorros, formar-se uma nova classe, a dos cibercães de rua, que vaguearão em bandos arrombando nossos carros para beber seu óleo e invadindo nossas casas para plugar-se às nossas tomadas? Manter-se-ão, essas matilhas, em luta constante contra os cães de verdade que em defesa de seus territórios atacarão as carapaças metálicas do inimigo a dentadas?

Como será a relação cibercão-ladrão? Abandonaremos nossos ex-amigos de carne e osso à triste sina de virar sabão enquanto cibercães de guarda tomarão conta dos nossos pátios? Os cibercães enferrujarão na chuva? Haverá ciberdobermans, ciberpastores, ciberchihuauas, ciberlulus? Inventarão, esses insensatos, cibertartarugas, ciberhamsters, ciberpeixes, ciberpássaros com gravadores embutidos?

Ora, parem com isso. De que nos serviria um cachorro sintético que jamais sentiria alegria, suaria de língua de fora, inclinaria a cabeça em dúvida, comunicaria alterações de humor pelo olhar, rodopiaria ludicamente em busca do próprio rabo? Sequer a consistência de um cibercão me agrada. Você não daria tapinhas na cabeça de uma coisa daquelas. E quando morrêssemos, nossos cibercães não fariam luto ¾ seguiriam, de rabinho abanando, o primeiro que aparecesse.

Quer saber? Eu não sou amiga de torradeira, microondas, secretária eletrônica, fax, computador. Sou usuária. E não vejo a menor utilidade num cibercão. Xô. Cibercão, não.