O encontro de ACM com Raul Seixas
por J.Olímpio
 
 
Dia 2 de outubro de 2004, véspera de eleição presidencial.

Após uma campanha eleitoral repleta de casuísmos magistralmente explorados, ACM candidato das elites e de mais 68% da população à mercê de seu jeito soft-porrada-de-ser sofre um fulminante colapso cardio-vascular e deixa o País e o povo órfãos de sua presença insubstituível...!

As exéquias faraônicas, justissimamente custeadas por recursos do ICA (Imposto Compulsório Anti-pobreza) por ele criado em 1999, são transmitidas em rede digital para o mundo todo, com direito a repeteco na Estação Lunar Brasileira seu último grande projeto pré-campanha - construída pela Ford Space Motors da Bahia S/A.

A Nação rememora seus feitos inigualáveis, enquanto o reluzente esquife contendo seus restos quase-imortais alçam um derradeiro vôo desde a cobertura do edifício do Congresso Nacional, içado por um gigantesco helicóptero a jato(produzido pela Ford Aerospace Motors da Bahia S/A)...

A população jamais soube o local do sepultamento: uma cripta subterrânea à prova de ataque nuclear, camuflada por um terreiro de candomblé de Salvador.

(Pausa para trânsito da alma, ao som de João Gilberto.)

Quando ACM se deu conta, já estava no CETRILIM (Centro de Triagem do Limbo), sem o terno-e-gravata impecáveis e carregando a volumosa pasta rosa de seus pecados.

A fila era pavorosamente longa e o vento encanado fazia seu camisolão cinza de penitente-ainda-não- destinado balançar mais que os glúteos da "cantora" oxigenada (sua conterrânea) que, coincidentemente, também se encontrava na fila.

Horas (séculos?) de angustiada espera, a pasta rosa pesando horrores sob o sovaco pefelista, ACM escuta uma voz familiar chamá-lo pelo nome de batismo. É o anjo do guichê em frente, em cuja placa se lê: BAHIANOS.

Olho no olho, o anjo de barba caju e óculos escuros abre um sorriso enigmático e inicia o seguinte diálogo atemporal:

Anjo: - Ora, ora... se não é o meu conterrâneo poderoso! Ainda lhe chamam de Malvadeza?...

ACM: - Mas é claro que não!... Onde já se viu?

Anjo: - Iiiih... sem essa, bicho! Olha que eu nasci há dez mil anos atrás...

ACM: (ira contida) - Fique o senhor sabendo que eu exijo respeito e imunidade parlamentar...!

Anjo: (fingindo-se arrependido, meio que cantando) - Ôpa, desculpe o mau-jeito, meu maluco-beleza... Aqui no Limbo, as coisas são um pouco diferentes. Eu é que não ficaria aí com essa boca escancarada, cheia de dentes, esperando a moooorte chegar!...

ACM: (espantado) - Morte?... Mas eu já não morri???

Anjo: (adorando) - Vê se te órienta, nêgo: já sabem do teu furo...

ACM: (irritadiço) - Pára de falar assim, cantarolando a minha desgraça e desembucha: eu já não morri???...

Anjo: (caprichando) - Ói, já é vem...

ACM: (bahianamente indignado) - O senhor está se arriscando a perder sua reputação junto ao Todo-poderoso! Eu tenho ligações...

Anjo: (afinado como nunca) - Eu não sou besta, pra tirar onda de herói...

ACM: (esbraveja caudilhescamente) - Eu invoco a Constituição, que eu mesmo vilipendi... (a língua trava, à beira da confissão involuntária)

Anjo: (sério, estendendendo-lhe um crachá vip do Inferno) - Pronto, agora é só seguir por aquele túnel à direita. Foi uma honra atendê-lo... (estende-lhe a mão calejada pela guitarra) Meu nome foi Raul, Raulzito
pros amigos.

ACM: (atarantado, olhando seu crachá) - Mas, mas... isso está totalmente fora de questão...!

Anjo: (apontando para cima) - Ói, lá vem Deus... Deslizando entre brumas de mil megatons...!!!

(Pausa dramática...)

O novo habitante das profundezas eternas começa a arrastar-se, lento e cabisbaixo, rumo ao nauseabundo e escuro túnel.

Enquanto isso, sua rebolante conterrânea e colega de fila vira-se para o Senhor e dispara:

- Escuta, LIMBO não é aquela gosma verde que nasce no muro, depois que chove?...
 

--- FINIS ---
 
 
J.Olímpio
jolimpio@osaldaterra.com.br
 
 
NOTA DO AUTOR: Este texto foi elaborado em meados de julho de 1999, uns bons vinte dias antes do discurso de ACM no Senado - 5 de agosto -, quando expôs seu projeto "anti-pobreza" (sic).

NOTA DO EDITOR: É verdade. O texto foi enviado ao Não em 30 de julho. A nota acima, em 6 de agosto.
 
 

NÃO 66