Mérida
por Maria Luíza Sá e Madureira

Sua vez. Mérida esticou o braço e tirou da pilha de cartas um nove de espadas. As outras esperam que ela decida entre ficar com a carta ou jogá-la no lixo. Lixo, não servia. Rita baixou um três de ouros num jogo quatro cinco seis sete oito nove. Canastra limpa. Sorriu para sua dupla. Jogou um ás de paus no lixo e bateu.

Semana que vem nos vemos, então. Agora Mérida voltará para casa à pé, com um pouco de medo por que são onze da noite de um sábado e, hoje em dia, com a violência do jeito que está, Martha só não foi estuprada cruzando a Liberdade em plena luz do dia por que correu para um brigadiano, patati patatá. Mesmo assim, é provável que Mérida chegue em casa inteira, sem nenhum arranhão, com a bolsa a tiracolo e tudo mais, bem do jeito que vem ocorrendo nos últimos dois anos.

Como de costume, ao passar pela Praça das Nações, tão escura, tão deserta, ela pensará por que será que não cuidam dessa praça?, e esta questão será seguida de uma pequena avaliação da quase uma quadra que a praça ocupa, é realmente um lugar que eu gostaria de freqüentar, ela dirá, e nesse momento já estará prestes a perder o lugar de vista.

Porém, hoje será diferente. Mérida vem pensativa, fazendo seu caminho habitual. Seu joanete incomoda um pouco, como sempre. Mas algumas perguntas se contorcem dentro de sua cabecinha angulosa. Agora a Praça das Nações, a seu lado, já não a faz ter pena. Mérida sente um formigamento entre as pernas, Mérida não pára de se perguntar, que droga é essa de vida em que em pleno sábado eu volto para casa às onze horas da noite depois de ter jogado as mesmas cartas de sempre com as mesmas amigas de nunca? Ela precisa parar, precisa sentar-se um pouco, sentar-se sobre o banco verde descascado que mais parece uma ruína de um banco verde estalante de novo. O formigamento não passa, se estende para o ventre e vai subindo indo indo até os seios, a nuca, as orelhas vermelhas zunindo. Mérida treme sentada no banco. Se contorce de espasmo, mas por que isso agora, meu deus? Mérida não sabe o porquê nem a origem dessa onda de prazer que lhe toma de tal forma que agora sente os insetos da terra sob seus pés subirem-lhe pelos tornozelos, suas canelas finas, suas coxas parcas, entrando-lhe pelo sexo e dando voltas em seu útero, como quando fazem em torno de lâmpadas. Só então Mérida dá-se conta de que há um homem sentado no banco em frente. Está constrangida, mas não menos excitada. O homem a está observando, devia estar observando-a todo o tempo, o senhor está aí há muito tempo?, o senhor me desculpe, acho que não estou me sentindo muito bem, acho que vou embora, acho que, sim, vou embora. Acho.

Os insetos e a terra se misturam sobre o corpo de Mérida sob o corpo do homem, você está me machucando! O homem que tira as calças e as cuecas montado em cima dela, que lhe rasga a saia pregueada e as meias finas, as meias novas, por favor, me deixe ir!, lhe arranca as calcinhas sem cuidado, sem carinho. E começa a cavalgá-la como que querendo rasgar-lhe o ventre, perfurar-lhe o útero. O homem que goza e vai embora. Volte! Já passam de duas da manhã e Mérida dorme um sono profundo enroscada no banco apodrecido. Não parece mais ter medo de assalto e sonha com larvas virando borboletas, borboletas verdes, amarelas, lilazes, de todas as cores, indo e voltando, indo e voltando sobre a Praça das Nações. A praça deserta é realmente um lugar que ela gostaria de freqüentar.

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