Que viva o Sebastião!
por Miguel da Costa Franco

Manhã de sábado.

Acordo mais cedo do que precisaria. Um misto de ressaca e rinite alérgica me faz despertar às sete e meia. Tomo uns goles dŽagua, me livro de outra parte do problema no vaso sanitário e volto ao berço. Preciso dormir um pouco mais.

Sinto falta de mais cobertas mas, preguiçoso, permaneço deitado. Assim é que não durmo. Remôo coisas. Decepções, desilusões, uma negociação em curso que me traz à tona visões perversas e ruins, uma relação que esbarra nas palavras e nos gestos e aos tombos se precipita para o nada. Uma filha à porta que me repete "vamos, pai, anda". Sim, desperto. Acho que cochilava, enfim. Mas vamos, sim, te levo à escolinha de teatro, filha. Me dá um tempinho só, já me levanto. E lá vou eu, que é tarde até para as decepções.

O sol na rua, o céu azul, árvores desgalhadas da noite anterior dividindo calçadas, horda de cães focinhando uma cadela vadia. (Seria bom trepar!).

As palmeiras da Osvaldo Aranha balançam compassadamente. Venta, ainda. E faz frio. Mais do que minha roupa ainda outonal suporta. Brinco de dirigir com as coxas e fricciono as mãos, para aquecê-las. Minha pequena me repreende e volto ao volante. Gosto de transgredir mas a ela obedeço. Atinjo o túnel, surpreendentemente cheio àquela hora: dez da manhã. Fecho totalmente o vidro do carro na Mauá, que lá o frio é o dobro. Seguimos em silêncio. A ruazinha que dá acesso às Dores é o máximo. Pena os quartéis e aquele inútil Tribunal de Contas. Tangencio rapidamente aqueles prédios toscamente militares da ponta do Gasômetro e chego enfim ao teatro onde me despeço de Marina com um longo beijo e um cheirinho nos cabelos. Gosto dela demais.

Volto. Duque, praça da Matriz, Independência, meu morro. O portão da garagem reluta em abrir mas, por fim, responde. Pega o jornal prá mim, filhota, peço à outra que me acompanhava silenciosa. Enfim, em casa, faço um mate, tomo uma aspirina, ponho um filmezinho no vídeo. Me traz um cobertor, pai? É claro, bichinho fofo. E cubro ela de beijos. Também a amo demais. Fica satisfeita com meu denguinho. Sorri, contente e me atira um beijinho feliz.

Abro janelas, subo cortinas, retomo chinelos velhos. Desembrulho o saquinho plástico que proteje o jornal, em verdade o arranco meio sem dó. Jornal de sábado, fininho e vazio: não espero muito dele. A contracapa mostra muitos carros cobertos dŽagua no Parcão: "Chuva alaga Porto Alegre", "Gerdau inaugura projeto no Rio", foto do empresário sorridente num capacete que ele só usa a passeio, com Medeiros, Garotinho, Benedita. A lesma lerda.

Desisto da porta dos fundos e resolvo entrar pela frente.

Que susto!

Explodindo na capa, uma baita foto colorida de quase meia página mostra o fim de um acampamento de sem-terras. Rostos desanimados, gente carregando trouxas, colchões, comida, cobertores. Gente simples, traços feios, judiados, barbas por fazer, faina meio derrotada. Muitas camisas vermelhas, é claro. Outras amarrotadas. Por cima e ao fundo um grande painel publicitário: três gatíssimas, uma das quais apenas imagino, coberta que está por um saco de farinha. Riem felizes. Riem para nós. E riem deles. Dentes brancos, cabelos com aquele desgrenhado que sabemos ter sido formado a xampu e penteadeira, peles maravilhosas, olhos que um dia hei de comer. O Brasil oficial rindo do outro. O Brasil "in" desdenhando dos excluídos. O Brasil da beleza siliconada rindo da barbárie morena e desdentada. Na manchete, embaixo, o ministro mentia deslavadamente: "Estamos dando um golpe no latifúndio".

Plim-plim.

Certo de que a queima do relógio foi apenas mais um aviso, joguei a merda fora e abri um livro de fotos do Sebastião Salgado.

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