BAFO DE BANANA

Miguel da Costa Franco
 

 

Marinalva, como já era costume, jantara apenas uma banana com açúcar e seu pai, neurótico, deixou-se invadir outra vez pela forte suspeita de que ela não dobraria a esquina dos quinze. Desde pequena, a menina se mostrara avessa aos quitutes e aos apetites comuns aos demais mortais. Mostrava estranha preferência pelos alimentos secos e sem graça, pelas frutas meio verdes e pelas comidas requentadas. Ela ria e protestava. Olhava-o candidamente e dizia, entre sorrisos: vai te catar, velho! Mas ele não se catava. Mais e mais se preocupava com o caminho perigoso que a pouca alimentação reservava para aquela caboclinha franzina e metida a besta que ajudava a criar, com as dificuldades e os confortos que o serviço monótono da repartição e o salário escasso lhe permitiam.

A velha, não! Não estava nem aí. A cada dia, mais se preocupava com a fortaleza de seus próprios músculos, que o esforço repetidamente diário de levantar pesinhos e alongar pernocas e empurrar paredes fazia cada vez mais duros e vistosos. Comia bem, agora. Até mesmo os restos que a menina deixava no prato, a velha passara a comer com avidez, como se fumasse. Seus dias de passarinho haviam ficado lindamente para trás. Dava gosto vê-la partir para a quitanda, atrás de couves e cenouras, beterrabas, aipos e tempeirinhos, vê-la rechear com ânsias um tatu ou beijar ardorosamente as entranhas carnudas de uma abobrinha italiana, antevendo-a no prato, coberta de cebolas, um pouco de shoyu e uns borrifos de pimenta preta.

Mas Marinalva mostrava sempre um certo enfado à hora da comida, como se comer fosse coisa que se pudesse descartar um dia, como um dia se abandonam as bonecas e as brincadeiras de roda. Era moça, agora. Prá que comer? Era como se comer fizesse parte da vida apenas quando se está em formação, um hormônio de crescimento, um fermento.

Para o velho, que tinha nas refeições quase que uma referência de felicidade, jantar uma banana com açúcar era enfiar-se, voluntário, num campo de concentração. Sabia-se inapto a ensiná-la a comer. Comer é só comer, pombas! Talvez a própria avidez com que ele comia fosse o maior dificultador. Não relutava em atracar-se como náufrago a uma gordurosa costelinha de porco ou chupar com volúpia e estrondo o tutano molinho do osso da sopa ou lambuzar a camisa branca de colarinho uniforme de trabalho com o molho suculento e escuro das macarronadas da velha. Isso lá era exemplo para uma moça? Quantas vezes precisara trocar de camisa após as refeições? Se ao menos perdesse o mau hábito de jogar a comida do garfo para a goleira da boca quando este se encontrava já perto de um palmo dela...

Vai aí uma banana com açúcar? brincou Marinalva.

O velho acenou com desdém para a filha e reclamou um café fresco para a velha. Um vento morno batia no avarandado e a cadeirinha reta, de espaldar alto e veludo amarronzado, que um dia fora vermelho - onde se aboletara para a fresca da noite -, já o fizera empapar a camisa de seda javanesa com o seu suor viscoso, a linda camisa floreada que comprara numa das banquinhas do Terminal, quando se deslocava para a repartição. Logo, logo, a velha ia mandá-lo sair dali,.. para não encharcar a cadeira, diria.

A televisão suspirava na sala, ora ardorosa, ora lúgubre. Devia ser a novela das oito, que agora sei lá por quê - andava começando lá pelas nove. Você sabe que eu te amo, Helena, ainda que me tenhas deixado pelo Pedro. ... Eu sei Miguel, mas... Um cheiro de café bom o distraiu da baboseira e suas narinas abriram-se um pouco mais. Comida, outra vez. Era como um vício, ele sabia.

A velha lhe trouxe o café e sentenciou: vais empapuçar toda a cadeira com esse teu suor!

Ele não fez que sim nem que não. Apenas acomodou as pernas na beira do vaso da varanda, sem cuidar das folhagens que amassava. Uma lombeira dos deuses, ...

- Não quer mesmo uma bananinha? insistiu Marinalva.

Com canela? interessou-se o velho.

Quando foi ao berço, a velha se deitara há horas.

Bafo de banana... resmungou ela, ao beijo protocolar.

O velho soube que o dia se acabara ali.