A carona
por Ariela Boaventura
Eu dirigia pela Free Way quando a vi, sentada num banco. Diminuí a velocidade. Morena, vestia calças jeans justas e uma blusinha branca que deixava a barriga perfeita à mostra. Era madrugada de sábado e o local estava deserto. A primeira coisa que pensei é que se tratasse de uma puta, mas ela não parecia estar ali a negócios, na verdade ela dava ares de quem havia saído de um velório, tal a tristura que pairava no seu rosto. Parei no acostamento diante dela. Apesar da cara azeda era muito bonita, beirava uns dezoito anos.

Sorri e perguntei, de dentro do carro, se ela esperava por algum ônibus aquela hora. Ela fez que sim com a cabeça, emburrada e distante, nem me prestou atenção. Insisti na conversa.

 
A esta hora não tem mais ônibus, o primeiro sai só quando amanhecer, avisei. Então ela finalmente me olhou e disse que iria esperar ali até que amanhecesse. Maluca. Eu falei que era perigoso ela ficar ali sozinha e perguntei para onde ela estava querendo ir. Porto Alegre, ela respondeu, ainda com jeito de poucos amigos. Eu disse que estava indo para lá, e ofereci uma carona. A moça lançou-me um olhar desconfiado e disse que preferia esperar. Teimosa.

Olha, eu não mordo, sou casado e tenho duas filhas. Eu só quero ajudar porque acho errado você ficar aí nessa escuridão, sozinha.

Eu não tinha mulher nem filhos. E também não ia para Porto Alegre. Ela topou, levantou-se do banco e entrou no carro. Me contou que havia brigado com o namorado naquela noite e por isso estava voltando para sua casa; também disse que estava muito triste e que amava o cretino.

Enquanto seguia pela estrada, deixei a garota falar para se sentir mais segura; as mulheres são assim, a tagarelice faz com que tenham a ilusão de ser espertas e estar no controle de uma situação. Mas essa criatura não deveria ser muito inteligente para estar numa estrada a pé sozinha de madrugada, e ainda aceitar a carona de um desconhecido. Perguntei o que ela fazia, se trabalhava. Para minha surpresa, a gostosona disse que estudava psicologia na PUC, estava no segundo ano.

Bem, ainda não foi provado que psicólogos são inteligentes; a meu ver Freud foi um cheirador e, viciado, precisava de alguma desculpa para justificar tanto pó. Mas isso eu não digo a ninguém, e para a garota eusó tive elogios. O nome da gatiosa era Lenara.

Acho que houve uma época em que foi moda colocar nos filhos esses nomes trouxas que carregam um odor tão popular como sovaco de feirante. Dizem que esses nomes surgem porque os pais juntam a primeira sílaba do nome da mãe com a última sílaba do nome do pai, e assim nascem coisas monstruosas como Mareci, Jurandir, Reginaldo, Celmar, Valdivina, Lucimar, Valdirene, Jociana etc.

 
O meu é Darci, eu disse. Darci lembra nome de caminhoneiro, talvez a imagem da estrada tenha me inspirado a inventar isso para a Lenara. Também menti que precisava parar num posto de gasolina para abastecer. Senti que ela ficou matutando. Mas agora era tarde para raciocinar, ela tinha que ter pensado melhor antes de subir no carro. Peguei o acostamento e em seguida uma ruela de terra às escuras. Lenara me olhou assustada e perguntou por que eu tinha pego aquele caminho.
 
O posto é logo ali, não precisa se assustar. Se eu não paro neste aqui, o próximo posto fica a mais de quinze minutos, e vamos ficar sem gasolina antes disso. Falei com segurança, com calma. Eu só necessitava de mais um tempinho para chegar aonde queria, mas isso poderia demandar imprevistos: era preciso garantir o combustível; eu sabia que havia um posto de gasolina logo adiante. E estava certo. Parei, pedi que colocassem dois litros. Lenara estava quieta, e isso não era bom, me deixava tenso.
Eu trabalho como representante de uma marca de cerâmica, vendo o material para engenheiros e arquitetos, eu disse. Revelei a marca, tradicional no setor. Ela sorriu para o painel do carro, disse que conhecia a marca. Lenara não me olhava nos olhos quando falava, o que significava que ela não confiava em mim. Mas isso já não me importava. Só precisei realmente de sua confiança quando a abordei e a persuadi de vir comigo. Liguei o carro e partimos; em seguida entrei em outra estrada de chão batido, ladeada por mato fechado e tão estreita que mal cabia a largura do carro, e acelerei o que pude chegara o momento.

Lenara compreendeu tudo em um instante e, se controlando, disse que estava com muito medo e iria descer do carro; soletrava as palavras com uma voz sussurrante, no lmite entre o meigo e o sensual. Meu pau enrijeceu dentro das calças. Ela estava tão cagada que nem via o trinco que abre a porta, via somente que estava encurralada, e começou a gritar por socorro. A desgraçada parecia um bezerro sem mãe, urrava muito alto, achei melhor não arriscar. Mandei que calasse a boca. Lenara nem ouviu. Diminuí a velocidade, lancei mão do meu canivete e coloquei a lâmina junto ao pescoço dela; com a mão esquerda eu dirigia. Ela parou de berrar, chorava tremendo, lágrimas deslizavam por seu belo rosto. Sua boca era muito atraente e decidi que iria fodê-la ali mesmo. Parei o carro. Mantive o canivete ameaçando-a.

Cala a boca, eu falei, entre dentes. Ela fixava meus olhos com o genuíno pavor dos que sentem o bafo da morte. Subitamente, Lenara resolveu ignorar o canivete e recomeçou a gritaria. Grudei-lhe um tapa do lado do ouvido direito e depois outro e mais outro. Quando cansei de bater de um lado passei para o outro, mas ficava meio canhestro, então retornei a esbofeteá-la do lado direito; ela não me obedecia, parecia não sentir dor.

Vou te matar, eu disse, mais para mim que para ela ouvir. Liguei o carro e saí devagar, a esmo, apareceram algumas casas de madeira; os gritos da cadela fizeram alguém acender uma luz e tive medo da polícia. Consegui chegar em um descampado, as casas ficaram para trás. Parei de novo o carro e parti para cima dela. Tentei acertar-lhe um soco, mas ela desviou rápido, e como gritava feito uma buzina meti uma mão inteira dentro de sua boca, alcançando com os dedos a garganta. Ela me mordeu feio. O que só serviu para me irritar mais. Concluí que eu tinha de ser mais rápido, Lenara também não estava ali para brincadeiras. Rasguei a blusinha branca em busca dos seios, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa a puta avançou na minha cara, queria furar-me os olhos e onde encontrou carne ela retalhou com as unhas.

Aquilo já estava além do que eu previa. Em geral as mulheres, numa situação destas, ficam tão cagadas de medo de morrer que se entregam sem ao menos protestar. Mas Lenara era um animal, seu instinto de sobrevivência falava mais alto que a razão. Peguei o canivete de novo. Ela recobrou num segundo a calma que a situação requeria, caso quisesse viver. Seu rosto sangrava, um olho estava com hemorragia interna, o globo branco se tornara uniformemente vermelho; a boca inchara, deformada pelos sopapos.

Me deixa sair, ela suplicou, me lançando o olhar mais terno possível. Suas mãos também tinham sangue. Usou as mãos ensangüentadas em seguida, desatando um pai-nosso, mas ela rezava gritando, era uma serra elétrica ligada, e berrava tão alto que eu não suportei, me aturdia, eu nunca tinha visto uma criatura tão insana. Lenara calou-se por um instante, se virou para mim e ameaçou-me com o demônio, falando que se eu a matasse ela viria me infernizar durante o resto de meus dias, e que mesmo se morresse, lutaria até o fim. Devo ter machucado a língua da maluca, pois o som da voz saía meio grogue, como se estivesse com a boca cheia de comida. E ela falava tudo isso soluçando de modo tão convulso que a saliva escorria queixo abaixo. Mas não vi nenhuma lágrima, era um choro seco que só se manifestava com um soluço horroroso.

Não tenho medo de demônios, não foi isso que me fez desistir. Sou um homem prático, há milhares de vítimas mais fáceis e eu estava todo sujo de sangue, tinha carne da mulher acumulada debaixo das minhas unhas e, sobretudo, estava exausto dos seus gritos. Matá-la daria muito trabalho e eu também sairia machucado porque a égua estraçalhava o que via pela frente.

Sai daqui, eu lhe disse. Abri a porta do lado dela.

Lenara não teve reação, talvez não acreditasse no que ouvia. Sai daqui, anda, antes que eu me arrependa, repeti. Ela continuou quieta, então eu a empurrei para fora do carro, ela parecia um autômato, senti cheiro de mijo e vi que havia uma rodela molhada em sua bunda, que merda. Lenara tremia tanto que mal conseguia caminhar. Engatei a primeira e me mandei. Amanhecia.
 

Ariela Boaventura


 

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