A BURRICE DO DEMÔNIO
por Marília Verissimo Veronese
 

O título não é meu. É do psicanalista, e para mim grande exemplo de dignidade moral, Hélio Pellegrino. Esse cara foi um dos precursores do enriquecimento do pensamento psicanalítico no Brasil, que desembocou em nomes como Jurandir Freire Costa e Maria Rita Kehl. Lendo o texto do Jorge no Não ao vivo lembrei dessa crônica fantástica, originalmente publicada na Folha de São Paulo de 05/11/1986, e que também dá título à coletânea de textos do Hélio editada pela Rocco em 1988.

Hélio era católico fervoroso, e comunista, além de psicanalista. Um homem do século XX, tendo extraído de cada uma das suas narrativas o que elas tinham de melhor, descartando a burrice, inteligente que era. Foi casado com a nossa Lya Luft. Esse texto é uma homenagem a ele, pois acho que a força de suas palavras tem algo a nos dizer contra a insânia da guerra, e por isto reproduzo trechos que talvez sejam desconhecidos a muitos. É contra a guerra, é bonito, é anti-bushiano, demoniza o que merece ser demonizado (o próprio demônio) e portanto constitui libelo pacifista e uma tentativa de produzir sentido nessa vida, já que não o temos a priori - justamente por isso precisamos inventar algum - precarizados que somos.

Então escrevia o Hélio:

"(...) Ele (o demônio) é pura força tanática, desarticulada de seu contrapeso erótico. A pura morte é dilaceramento, desagregação da matéria. A morte disjunta, desfaz, atomiza corrompe o rosto do mundo. Nessa linha, a capacidade do demônio é insuperável. Ele preside, alegremente, à fissão nuclear. (...) Ao demônio é impossível unir o que quer que seja, pois lhe falta bondade. (...) Ele funda o lugar da máxima mentira. A verdade é relação, enredamento, tecido de pertinências que se entretecem. O demônio está condenado, por toda a eternidade, a não ter relação com quem quer que seja. É incuravelmente burro porque é ausência absoluta de amor. Todo ato de bondade se comunica, se distribui, irriga a carnadura do real. Se a vida ainda existe é porque a virtude prevalece, como inteligência ordenadora, contra o desmembramento de tudo.

"(...) É preciso contar com a força das coisas simples. A cada manhã presencio o milagre da água que jorra, - prestativa, clara, generosa, modesta, - da torneira. Para que isto aconteça, é preciso que muita gente trabalhe, muitos gestos se somem, muitos músculos se articulem, desde a nascente da água até o metal da torneira de onde ela jorra, para desespero impotente do demônio incapaz de anular a bondade que a faz jorrar. (...) Deus está ao lado do povo oprimido. O resto, a torneira matinal, com sua cega paciência, se encarregará de lavar."

Louvando a força erótica humana (articulada com o seu contraponto tanático), o trabalho e a bondade do Deus dos justos, Hélio faz um belo texto pacifista, atualíssimo. E, afinal, precisamos desse sentido pra seguir acreditando em alguma coisa que valha mais a pena de se ver.


Marília Veríssimo Veronese <mveron@pucrs.br>