Diário do antes
por Giba Assis Brasil


2020 certamente vai pra ficar pra história como "o ano em que fizemos contágio" - um pouco diferente do que previra o Arthur Clarke para 2010. Muita gente já publicou e ainda vai publicar seu "Diário da pandemia" ou "do ano da peste". Sem querer seguir a corrente, nem ser original, só lembro que, pelo menos aqui no Brasil, o ano já era uma merda antes da chegada do bicho.

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1º de janeiro, quarta-feira

Semana passada, na Piauí, o Marcos Nobre disse que o inimigo é um só, o cara que tá fazendo de tudo pra acabar com a democracia, e que, em defesa da democracia, vale se aliar com todos os arrependidos. E eu concordei, em tese. Mas, nos últimos dias, li no UOL dois textos que complicam a resolução. Primeiro, o D. R. diz que "se decepcionou" com o governo Bolsonaro porque ele "foi muito autoritário". Mais do que ele esperava, talvez? Como acreditar num sujeito desses, como conversar com a turma dele? E ontem o F. S. voltou a bater na tecla de que "os acertos na economia" são o grande trunfo do governo, que afinal só "parece autoritário na retórica". Só mandando pastar. Feliz ano novo pra quem tiver paciência.

3 de janeiro, sexta-feira

Indo pra primeira sessão de pilates do ano, encontro na calçada, do lado de fora do estúdio, um cara dormindo no chão, deitado de bruços, coberto por um plástico transparente, como se estivese morto. Na saída, fui com Dani [a fisioterapeuta Dani Lagranha] conferir e o cara continuava lá, na mesma posição sob o plástico, mas respirando. Não era uma metáfora do ano novo, era só mais um cara dormindo na rua.

5 de janeiro, domingo

Pensamos em ir ao cinema, mas praticamente não havia opção: "Frozen 2" e "Minha mãe é uma peça 3" dividindo as salas, algumas ainda com "Guerra nas estrelas 9" e um lançamento do Clint Eastwood cuja sinopse não me interessou - fora isso, como de hábito, 5 ou 6 filmes que seriam "marcas de diversidade" (brasileiro, húngaro, francês, russo, belga) mas todos eles só nas sessões da tarde, que já tinham acontecido; e, claro, a opção de ficar em casa e ver um filme por streaming.

8 de janeiro, quarta-feira

Um juiz mandou tirar do ar o especial de Natal do Porta dos Fundos, e diz que não é censura, é "pra acalmar os ânimos". Irã jogou mísseis na base americana do Iraque (em represália ao assassinato ordenado pelo Trump há 5 dias), mas parece que a trajetória foi calculada pra não matar ninguém.

Reunião de Colegiado do CRAV [Curso de Realização Audiovisual da Unisinos], primeira do ano, agora com o curso também em Porto Alegre. No almoço com os colegas, lembrei que em março de 2003 começamos o CRAV junto com a Guerra do Iraque; e agora?

11 de janeiro, sábado

Terminei de ler "Essa gente". Longe de ser o melhor livro do Chico Buarque, o final parece meio abortado; mas é admirável como ele consegue fazer ficção de qualidade sobre praticamente o dia de hoje.

13 de janeiro, segunda-feira

Ótima notícia pra cultura brasileira: "Democracia em vertigem" finalista do Óscar. E, por enquanto, os maiores indignados não parecem ser os bolsonaristas, mas os tucanos. Alguns escrevem coisas tão sem-noção que chega a dar pena.

17 de janeiro, sexta-feira

Ontem à noite vi que a Ana tava ouvindo um discurso do Roberto Alvim, o maluco direitista que é subministro da cultura do país, anunciando um novo Prêmio das Artes ou coisa parecida, mas não tive paciência pra prestar atenção. Agora vi que é a notícia do dia: o cara simplesmente copiou trechos inteiros (e a estética e o conteúdo) de um famoso discurso do Goebbels. No final da manhã, nova notícia: Alvim demitido - não por ser nazista, mas por ostentar.

20 de janeiro, segunda-feira

Li que hoje é "blue monday" (a terceira segunda-feira de janeiro) um conceito de pseudociência que tenta definir "o dia mais triste do ano" a partir de uma fórmula completamente nonsense, mas que serve pra vender pacotes de viagem para pessoas deprimidas.

28 de janeiro, terça-feira

Notícia do dia é o projeto "socialista" do prefeito pro transporte público de Porto Alegre: tem pontos discutíveis, mas basicamente ele propõe que os usuários de automoóveis banquem metade do custo do transporte coletivo. Uma ideia tão boa, e tão contrária ao que ele sempre defendeu, que é difícil acreditar que ele esteja falando sério.

2 de fevereiro, domingo

Dia palindrômico: 02/02/2020. Zeca Pires me mandou e-mail sobre isso. Fraga publicou homenagem aos palindromistas no Tweeter. Depois Teresa me passou uma informação adicional: é o dia 33 do ano; e, como é bissexto, faltam 333 pra terminar - dois palíndromos também. Sabe o que isso significa? Pois é, nada.

3 de fevereiro, segunda-feira

Sonhei com o [meu irmão, falecido] Plínio me dando conselhos, mas não lembro sobre o quê, e com um gol olímpico que eu antecipei e vibrei, mas não lembro quem bateu o escanteio.

4 de fevereiro, terça-feira

Inter 0x0 Universidad de Chile, no Estádio Nacional de Santiago, jogo que quase não saiu por causa dos protestos no país. (...) Já no final do segundo tempo, uma paralisação estranha, o juiz andava de um lado pro outro, os jogadores atrás dele, e o pessoal da Fox Sports, afinado com a Conmebol, não explicava o que estava acontecendo [e que só depois ficamos sabendo]: é claro, teve manifestações políticas no estádio, cadeiras quebradas, fogo na arquibancada, e a recomendação oficial era fingir que nada disso existiu.

7 de fevereiro, sexta-feira

Fui a três farmácias atrás do meu desodorante favorito, a colônia Leite de Rosas, da Nordeste S.A. Nas duas primeiras: "Só temos Leite de Colônia, o de Rosas não recebemos mais". Mas na Panvel tinha, comprei todo o estoque: dois frascos. Me senti como o meu avô, que um dia, como eu estava indo ao Rio de Janeiro, pediu que procurasse por lá a loção de barba "Madeiras do Oriente", que era a favorita dele mas há anos não se via em Porto Alegre. Novos tempos, velhos hábitos, e ainda somos os mesmos.

8 de fevereio, sábado

A partir das 16h, manifestação contra a privatização (ou seja lá que nome tenha) da Cinemateca Capitólio. Muito calor, e bastante gente. Protesto com alegria: o assunto é sério, mas nosso desejo é ainda mais. Teresa com os mil adesivos que ela mandou imprimir, e foram quase todos. Antônio, Jonatas e Laura na bateria, Joana dançando, Giordano puxando a cantoria, uma paródia do "Bella ciao": "A prefeitura / que já não paga / resolveu inventar um edital-tal-tal". Felipe Diniz com sua filhota Olívia e um cartaz com letra infantil: "Meu primeiro filme foi na Capitólio". Na hora do abraço simbólico, pelas 17h45, calculei que devia ter mais de mil pessoas. E foi a hora certa pra fugir da chuva: ainda nem pingava, mas no Beira-Rio, a 2 km dali, o locutor da rádio Gaúcha disse que não conseguia enxergar os números dos jogadores, de tanta água. Na praça o temporal chegou pouco depois, e bem menos forte.

12 de fevereiro, quarta-feira

Uma semana depois de chamar os funcionários públicos de parasitas, nosso superministro da Economia hoje comemora a subida do dólar (R$ 4,35), "porque antes estava uma festa, até empregada doméstica indo pra Disney". Volto à minha teoria da conspiração particular: no fundo, no fundo, o que derrubou a Dilma, nesse país que nasceu e continua escravocrata, foi a PEC das empregadas domésticas. Não é por acaso que o único deputado que votou contra (e sempre se orgulhou disso) hoje atende no Palácio do Planalto. Alguém colocou ele lá.

14 de fevereiro, sexta-feira

Indo para o litoral uruguaio. Na cidade de Treinta y Tres, paramos pra ver o enorme obelisco em homenagem aos 33 orientales exilados na Argentina que desembarcaram clandestinamente na Banda Oriental em 1825 para lutar pela independência do país. Mas o que mais nos intrigou foi um outro monumento, a duas quadras de distância: uma foice e um martelo vermelhos, com uma inscrição a respeito dos "gigantes sobre cujos ombros nos erguemos" ou coisa parecida. Não encontrei nenhuma explicação para todo esse entusiasmo comunista. Bem na frente do monumento, uma farmácia com uma inscrição: "No vendemos marihuana".

16 de fevereiro, domingo

Em Cabo Polonio, almoçamos no Mariemar, um restaurante à beira da praia. Da mesa ao lado, um dos caras percebeu que éramos brasileiros e perguntou "Y Bolsonaro, todo bien?" Respondi que "todo malo" e todos concordaram, sem que se precisasse estender o assunto. A bolha, "la burbuja", cruza fronteiras.

Terminei de ler "A consciência das palavras", do Elias Caneti, afinal um ótimo livro de ensaios. Tive azar de começar por duas conferências meio sem graça, mas insisti com o extenso e belíssimo texto sobre os cartas do Kafka e, a partir daí, valeu muito a pena. No ensaio "Escola da resistência", Canetti fala sobre Karl Kraus, escritor austríaco que, no início do século passado, passou anos alertando para a iminência e o horror da guerra mundial que se avizinhava. Parece muito atual o que ele escreveu em novembro de 1914, quando a guerra enfim veio:

"Aqueles que agora não têm nada a dizer, porque o ato tem a palavra, seguem falando. Quem tem algo a dizer, que se apresente e cale!"

17 de fevereiro, segunda-feira

Às 16h chegamos em Punta del Este, aquela paisagem metida, gente rica ostentando e falsos ricos se fazendo de ricos, prédios com 20 andares, sacadas em curva e muito vidro. (...) Maldonado, pouco adiante, já é outra paisagem; aqui estão os pobres de Punta, o pessoal que arruma as camas e varre as ruas.

19 de fevereiro, quarta-feira

Exibição de "Aos olhos de Ernesto" no Festival de Punta del Este. Sessão ótima, como esperávamos do contato do filme com um público de uruguaios, e basicamente idosos (mas depois a Ana chamou atenção que a maior parte da plateia na verdade era de argentinos). A filha do Jorge Bolani (Ximena, 8 anos), bem emocionada, veio me perguntar onde eu apareci no filme. Eu tentei explicar, em portunhol para crianças, que eu não apareço, eu sou aquele que junta os pedaços e tenta contar a história. Pronta resposta dela: "Se salió muy bién." O maior dos elogios.

21 de fevereiro, sexta-feira

Voltando pra casa, depois do Festival de Punta. Anoiteceu, eu no banco de trás, Ana e Teresa conversando lá na frente; começou a tocar "She's leaving home" e eu me lembrei de quando eu "fugi de casa", em 1979, mas agora do ponto de vista da mãe; 40 anos depois, me deu uma tristeza que eu não senti na época.

23 de fevereiro, domingo

Carnaval na Vigia [em Palmares do Sul, casa dos meus sogros], Ana e Teresa vendo a Mangueira na TV; enredo politizado e bem pensado, mas o samba não é empolgante como o do ano passado - o qual, como disse o Pedro Borba semana passada, "já nasceu clássico".

25 de fevereiro, terça-feira

Chegou a chuva, depois de uma longa estiagem por aqui. Faltou luz. E então ficamos um longo tempo esperando ela voltar. Jantamos, conversamos, eu quase peguei no sono no sofá. A chuva esperada e a escuridão que veio junto. Terminei de escrever essa frase e a luz voltou, depois de 4 horas.

27 de fevereiro, quinta-feira

No banco, saque, extrato e uma constatação: eu já sou um daqueles velhinhos que justificam e existência dos atendentes da agência, porque se atrapalham cada vez que muda a interface do caixa eletrônico.

29 de fevereiro, sábado

Janta com amigos: Ana achou que não podia perder um 29 de fevereiro e programou um nhoque. (...) Rimos muito, principalmente a partir da história que o Clóvis [Borba] contou (e que eu já conhecia, mas não lembrava) do gauchão, já no fim do baile, tentando conquistar a moça que também ainda não tinha dançado: "Finge que vai cagar e me encontra lá fora."

1º de março, domingo

Terminei de ler "O romancista ingênuo e o sentimental", do Orhan Pamuk, afinal o décimo livro concluído nas férias, mas março já começou. Em seguida, comecei a ler "O professor de desejo", do Philip Roth - que o Teo [Meditsch] deixou aqui em casa porque ele "sabe que não vai mais reler". (...) Discutimos, não aceito esse motivo, não é pra isso que a gente tem livros, mas também não é pra ter razão que a gente discute com os amigos.

4 de março, quarta-feira

Terminada a primeira aula do ano, corri até o Crematório Municipal, pra despedida do querido Ricardo Schneiders, que foi meu professor e depois meu colega e meu chefe na Fabico. Segundo o Fiapo [Barth], ele tava com câncer há quatro anos, e muito mal há meses. Segundo a Christa [Berger], ele fez 70 anos domingo, no hospital, sem festa. A família presente eram a cunhada e a sobrinha (o irmão que sobrou tá com Alzheimer), mais o Toni, com quem o Ricardo afinal casou, nos últimos dias ou meses, pra garantir que fosse herdeiro. Em toda a cerimônia, uma única foto do Ricardo, com uns 5 anos de idade, com aqueles olhinhos apertados de míope e um sorriso inconfundível.

6 de março, sexta-feira

Festa de formatura da Júlia [minha sobrinha] em Fisioterapia pela UFRGS, aqui em casa. Na hora em que ela subiu na sacada pra fazer o que ela chamou de "pronunciamento", contei 65 pessoas no pátio, mas algumas já tinham ido embora. Chorei bastante quando ela falou no Plínio. Mais tarde, conversando na cozinha, a cadeira desmontou e eu caí de bunda no chão - deve ter sido uma queda feia, porque ninguém riu.

9 de março, segunda-feira

Morreu, aos 90 anos, Max von Sydow, o extraordinário ator sueco de "O sétimo selo", do Bergman. Comentário do Jorge: o jogo demorou, mas a morte finalmente conseguiu dar xeque-mate. Minha resposta, antiga (e bem pior): é que o Max custou a se dar por vonsydow.

11 de março, quarta-feira

Corona Vírus chegou a Porto Alegre, já tem dois casos confirmados, mais de 90 no país todo, vai começar o pânico. E parece que com razão.



Giba Assis Brasil é montador de cinema e televisão, professor, palindromista e um dos fundadores do Não (com King Jim e Heron Heinz). Fala mais alto que ele tá ficando surdo!